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Transdisciplinaridade:
Uma visão emergente |
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Quando
falamos de transdisciplinaridade estamos colocando em evidência uma
visão emergente, que é uma nova atitude perante o saber, um
novo modo de ser. A implementação da visão Trans-disciplinar
na educação pede uma profunda e contínua reflexão.
Sem a prática reflexiva sobre a sua epistemologia e a subseqüente
tentativa de implementação concreta não há transdisciplinaridade.
Contudo, não existe um algoritmo transdisciplinar. Sabemos que o
processo educacional vigente apóia-se em parâmetros cartesianos
- fundamentais para o imenso desenvolvimento científico dos últimos
três séculos -, na ruptura entre sujeito e objeto, no distanciamento
entre as ciências ditas exatas, as artes, as ciências humanas
e num big-bang disciplinar.
Mas a verdade é que o processo de ruptura e fragmentação da educação teve seu início em um passado não tão recente. Um breve histórico mostra que na visão aristotélica, o corpo do saber dividia-se em três áreas: as ciências práticas, a Física; as ciências poéticas, a Matemática; e as ciências teóricas, a Teologia. Na Idade Média, as disciplinas foram separadas em duas áreas: o quadrivium, constituído pela matemática (a Aritmética, a Música, a Geometria e a Astronomia); e o trivium, constituído pelas disciplinas lógicas e lingüísticas (a Gramática, a Dialética e a Retórica). No início do séc. XVII, surge o método cartesiano de investigação, predominante até nossos dias, o qual preconiza a busca da verdade através da ciência, dando origem à primeira proliferação de disciplinas, uma vez que se baseia na decomposição do todo, na sujeição à repetição e à dedução de leis pragmáticas para cada uma de suas partes. Uma ruptura fundamental ocorreu entre o fim da Idade Média e o começo do Renascimento, quando houve uma profunda separação entre o sujeito e o objeto, entre a cultura humanística e as ciências experimentais, e quando se passou de uma visão tradicional ternária do homem, tido como sendo composto de corpo, alma e espírito, para uma visão binária: corpo e espírito (que se implantou claramente com Descartes), na qual o elemento mediador, a alma, foi suprimido. Essa ruptura acabou desembocando em uma outra, que se consumou no séc. XIX, e que se apoiava em uma visão mecanicista, separativista e cientificista, e que reduziu a existência apenas à dimensão física, seja enquanto sujeito ou objeto. Embora a ciência contemporânea tenha mostrado que essa concepção mecanicista do universo tenha deixado de ser defensável, mesmo do ponto de vista estritamente científico, a educação contemporânea privilegia, em geral, essa concepção individualista e mecanicista, que se apóia em uma visão tecno-econômica, numa realidade fechada, de exclusão e de marginalização, que é praticada pela economia, pela sociedade e também, estranhamente, pelas pessoas para consigo mesmas. A partir da metade deste século o big-bang disciplinar conduziu a abordagens multidisciplinares e interdisciplinares; porém, tanto a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade embora necessárias e meritórias, são insuficientes. A Disciplinaridade explora um objeto, a Multidisciplinaridade enriquece o objeto em estudo ao formar equipes multidisciplinares para o explorar; a Interdisciplinaridade, além de enriquecer a exploração do objeto, desvenda e encontra soluções, e propicia o surgimento de novas aplicabilidades, disciplinas ou caminhos. Tanto a Pluridisciplinaridade como a Interdisciplinaridade não mudam a relação homem/saber, uma vez que sujeito e objeto continuam dicotomizados, por estarem reduzidos a um único nível de realidade. E a Transdisciplinaridade? A Transdisciplinaridade reconhece vários níveis de realidade e não dicotomiza homem/saber. A Transdisciplinaridade engloba e transcende o que passa por todas as disciplinas, reconhecendo o desconhecido e o inesgotável presentes em todas elas, buscando encontrar seus pontos de interseção e um vetor comum. A metodologia transdisciplinar se apóia em três pilares: 1) a complexidade, 2) o terceiro incluído e 3) os diferentes níveis de realidade. Como já preconizado por Piaget, em 1970, a etapa interdisciplinar deveria ser sucedida por outra superior transdisciplinar. Mas não se trata de criar uma nova disciplina: a transdisciplinaridade, o que apenas somaria mais uma às 8.530 listadas em 1987 (Crane and Small 1992, p.197). Trata-se, ao contrário, de criar o imaginário transdisciplinar e, através dele, revisitar a disciplina, o conhecimento, o contexto, a estrutura, a pesquisa, a competência, a oferta, a relação sujeito-objeto, a noção de valor. Trata-se, portanto, de restabelecer a integralidade do sujeito, composto de diferentes níveis; bem como de atender as necessidades intrínsecas do ser humano e da sociedade. O avanço tecnológico resultante da visão cartesiana e depois cientificista trouxe inegáveis benefícios materiais para uma pequena porcentagem da humanidade, contudo, não atendeu às necessidades básicas da maior parte dela, e, não só não restituiu a integralidade do sujeito como seccionou-a ainda mais, e foi incapaz de alçar a qualidade de vida a um nível minimamente desejável para a absoluta maioria da humanidade. A quantidade não impede a qualidade, mas faz-se necessário um jejum da quantidade pela quantidade. Mais do que continuar a aprender mais do mesmo, precisamos de uma nova visão de educação. Educação, num sentido amplo, é autoconsciência e consciência do universo, em toda a suas dimensões e representações. À medida que nossa consciência se expande, nosso universo se expande. Ao nos livrarmos de pontos de vista cristalizados, em cuja defesa perdemos muito tempo e a própria vida, podemos nos abrir para novas soluções, vetores e propósitos. A transdisciplinaridade pressupõe uma estrutura de unidade dos diferentes níveis de realidade, num sistema dinâmico e aberto, que tem paralelo no teorema demonstrado pelo matemático Kurt Gödel em 1931. Nunca se chegará à culminância do saber, mas é possível se aproximar continuamente dela. Se existe um desejo pela qualidade e uma vetorização para a sabedoria, o critério de escolha emergirá naturalmente. Haverá assim um contínuo refinamento da vontade. O exercício da Transdisciplinaridade respeita, endossa, louva
e pede a prática competente da Disciplina, da Pluridisciplina e
da Interdisciplina, bem como define sua amplitude e limitação.
A Transdisciplinaridade, ao abandonar o pensamento reducionista, centrado
na eficiência, e ousar incorporar na Educação práticas
que favoreçam a criação e o desenvolvimento de valores,
ao reconhecer a existência dos sistemas complexos, ao procurar restituir
ao sujeito sua integridade, facilita a interação e colabora
com a missão da Educação de recriar sua vocação
de universalidade. A implementação da visão transdisciplinar se dará
primeiramente com a formação de formadores, com a educação
permanente dos mesmos, com ateliês de pesquisa, com a criação
e difusão de um imaginário transdisciplinar, de experiências
transdisciplinares inovadoras, etc., e, fundamentalmente, com o diálogo
reencontrado entre as diferentes disciplinas e entre os diferentes campos
do conhecimento (ciência, arte, tradição, etc.). Maria
F. de Mello |