Doação de Orgãos

Prezados Senhores,
Gostaria de saber qual é posição espírita sobre a doação de órgãos?
Obrigada,

Curitiba, 24 de outubro de 2001.

Prezada Senhora

Em sua correspondência, não está claro se há alguma questão em particular que a esteja interessando e, portanto, gostaríamos de comentar as dúvidas e perguntas que são feitas com mais freqüência aqui dentro da nossa instituição. Por favor, considere apenas como uma contribuição para o entendimento desse assunto complexo.

As questões técnicas relativas aos transplantes estão bem colocadas, e a tendência é que esta área ganhe cada vez maior importância dentro da medicina. Haja vista a importância de transfusões de sangue e derivados (não deixam de ser formas de transplantes), pele, córnea, tecidos ósseos, rins, coração, coração-pulmão, fígado, medula óssea, células tronco, etc.

É preciso, no entanto, diferenciar o domínio da tecnologia básica, ou seja, o conhecimento e a capacidade técnica necessária para fazer algo novo e a tecnologia social, ou seja, a capacidade do grupo cultural aceitar e utilizar esse novo recurso com naturalidade, fazendo parte de seu sistema de valores (exemplo: o automóvel e o lento desenvolvimento de regras e leis de trânsito).

A difusão de uma inovação provoca modificações na forma habitual de pensar e de agir, desencadeando novas questões de escolha, de valor, éticas, portanto. A sociedade, através da discussão, do debate, do questionamento, da informação dos especialistas, do posicionamento de suas lideranças morais, vai tendo condições de assimilar, adaptar e definir como quer utilizar o novo.

Depois de superadas as dificuldades técnicas de uma inovação, a etapa mais difícil é a formação de uma mentalidade e a correspondente massa crítica da sociedade para aceitar novas possibilidades.

Vários problemas atuais que o mundo enfrenta e que, com freqüência, as pessoas afirmam que são questões provocadas pela Ciência são, na realidade, problemas provocados por questões de valor, de sentido, de escolha. Uma crise, na realidade filosófica, a respeito da tecnologia, dos conhecimentos científicos e da transformação provocada por eles na cosmovisão atual.

As discussões e a polêmica em relação aos transplantes e doações de órgãos podem, em sua grande maioria, serem justificadas pelas afirmações acima. Mas uma constatação triste é que aqueles que se dizem materialistas consideram o transplante e a doação com menos dificuldades que aqueles que dizem acreditar em um princípio espiritual.

Com freqüência, pessoas utilizam concepções espiritualistas para sustentar posições equivocadas e distorcidas em relação aos avanços no conhecimento científico.

Portanto, é muito importante que as publicações espíritas façam estudos sérios a respeito da posição doutrinária em relação aos transplantes, procurando fugir dessas armadilhas de interpretação.

É importante clarear algumas posições gerais da Doutrina em relação à Ciência e às suas aplicações tecnológicas, não só para a questão dos transplantes, mas para qualquer outra questão.

A Doutrina é cogente, ou seja, é racionalmente necessária para dar unidade ao conhecimento científico, religioso e filosófico acumulados pela humanidade. Ela propicia a unidade de conhecimento.

A Doutrina, portanto, desde a sua codificação, não aceita que haja uma dicotomia, um antagonismo, dois mundos separados, o da Ciência e o da religião. Logo, vale a pena recordar a colocação feita por A. Kardec de que toda nova descoberta, invenção, inovação, criação feita pela Ciência será tanto da Ciência como da Doutrina.

Não há dificuldade, impedimento ou qualquer obstáculo, do ponto de vista doutrinário, em relação a qualquer avanço da Ciência que seja feito não como tecnociência, mas como Ciência com consciência, Ciência que não esteja divorciada de valor, de sentido, de ética.

Para a Doutrina, transplantes e doações de órgãos são conhecimentos que preenchem a preocupação com a unidade de conhecimento, ou seja, há sentido, direção, valor, significado. Não há porque deixar de usá-la em todo o seu potencial.

Pode-se citar três exemplos da experiência dos participantes do Grupo de Estudo em Saúde da SBEE, trabalhando em uma UTI neonatal e pediátrica:

três ou quatro vezes por ano desencarnam crianças com a patologia do ventrículo esquerdo hipoplásico, que poderiam sobreviver se se dispusesse de estrutura e de doadores; um adolescente sobreviveu após um episódio de hepatite fulminante, pois recebeu um transplante intervivos, disponibilizado por um tio, que correndo risco real de vida, assentiu em realizar a doação; uma senhora que após ter sido submetida a um transplante de fígado decidiu engravidar. Apesar dos riscos a gestação transcorreu sem intercorrências e a criança nasceu saudável. É a força do conhecimento novo a serviço da construção de oportunidades de crescimento e evolução para as pessoas encarnadas.

Para a Doutrina, o corpo físico, os órgãos biológicos, não tendo mais serventia para o espírito que o desenvolveu como veículo para sua expressão no polissistema material pode, em muitas situações, ainda ter condições, sob o comando de outro espírito, de melhorar a qualidade de vida deste, prolongando o tempo para as experiências de aprendizado.

Assim como se doa carinho, atenção, trabalho, esforço, idéias, horas de lazer, pode-se doar leite, sangue, pode-se doar um órgão duplicado, ou parte de um órgão único, ou se pode aceitar que uma vez não precisando mais de uma estrutura física, chegada a hora de retornar ao polissistema espiritual, o veículo orgânico, parte temporária da pessoa, possa ainda ser aproveitado por quem continua encarnado.

A questão central dos transplantes é a doação, doar, ceder, dar sem condições, predispor-se a ceder algo muito caro com objetivo de ajudar outra pessoa, um exemplo ativo, intenso de caridade, desprendimento, amor. Tanto por parte da pessoa que doa como de sua família, de suas pessoas mais chegadas.

A morfologia e a fisiologia, do ponto de vista doutrinário não se limitam ao corpo físico. Mas se deve considerar o espírito e o perispírito intimamente associados. Considere-se o conhecimento parcial da complexidade metabólica do corpo físico atualmente estabelecida e o extrapole para o duplo etéreo e o perispírito, por exemplo.

Assim como há um tempo para a formação do corpo físico a partir do molde perispirítico, após a fusão de gametas até ao final da adolescência, há um processo reverso, com desligamento gradual até a separação corpo físico/ perispírito.

O espírito sustenta o perispírito, o perispírito desenvolve, sustenta, a organização e o funcionamento do corpo físico, de acordo com as suas características. Há, portanto, uma especificidade muito grande entre o espírito e a estrutura orgânica desenvolvida. As características individuais, singulares daquele espírito se refletem no corpo físico. No entanto, há características biológicas, metabólicas fundamentais que são comuns aos seres vivos como um todo e comuns à espécie humana em particular. Basta lembrar a percentagem do genoma humano que é semelhante ao genoma de fungos, por exemplo, mostrando a quantidade de informações que são compartilhadas pelos seres vivos, em especial as informações fundamentais para a sustentação da vida.

Das informações ofertadas pelo patrimônio genético disponível após a formação do ovo, o espírito reencarnante “escolhe” aquelas que lhe são mais afins, embora a imensa base de informações, como as vias metabólicas, seja comum a todos os seres vivos da Terra.

O conjunto espírito-perispírito-duplo etéreo- corpo físico forma um todo equilibrado e harmônico. O conjunto tem no espírito o seu marcador fundamental de ritmo que determina o equilíbrio do todo. Mas não deixa de sofrer a influência dos marcadores de ritmo externos ao corpo físico, como a luz solar, que condiciona uma grande quantidade de ritmos de funcionamento. A idéia de ritmo, de marcadores de ritmo, de osciladores, externos e internos, são fundamentais para o equilíbrio do conjunto. Conseqüentemente, são importantes ao se considerar o transplante e o sucesso da doação.

Outro aspecto importante a ser destacado é a concepção do conjunto E-P-DE-CF como um sistema (aplicando alguns aspectos da teoria dos sistemas), no qual há níveis de hierarquia, contendo cada nível um conjunto de propriedades, características peculiares de funcionamento, mas intimamente relacionado aos níveis restantes. Exemplo: nível quântico, nível da física clássica, nível bioquímico, celular, tecidual, orgânico, morfológico e fisiológico, nível psicológico, mental, nível social e cultural, nível ambiental, nível perispirítico (pouco desdobrado devido à nossa limitação de conhecimento), nível espiritual, etc. Todos os níveis fortemente inter-relacionados com características próprias, algumas redutíveis a níveis próximos, outras não redutíveis aos níveis relacionados.

Ao ser retirado para o transplante (ex. um órgão) faz parte de um conjunto e ao ser realocado deverá se adaptar a níveis diferentes dos quais vinha se relacionando até então.

Pode-se então destacar alguns aspectos importantes para o transplante: que a parte transplantada tenha o funcionamento adequado como parte e que como parte se adapte aos novos níveis hierárquicos e ao ritmo da estrutura orgânica da qual vai fazer parte.

O que se conhece de sistemas imunológicos é uma forma de exprimir uma parte desse complexo sistema de adaptação, organização, funcionamento conjunto. Questões simples como tamanho do órgão doado, calibre vascular, tipagem sangüínea nos vários subgrupos, antígenos de compatibilidade, etc, expressam essas dificuldades de adaptação.

Uma argumentação freqüente de pessoas que fazem restrições aos transplantes resulta em uma interpretação equivocada, argumentando que o espírito doador se manteria ligado ao órgão doado. Cenas de filmes de terror como os do tipo “a mão que tem vontade própria” servem para divertir as pessoas, mas não passam de ficção.

Preocupações sobre o sofrimento para quem doa também são infundadas, pois, para os procedimentos intervivos, há o consentimento explícito, à vontade de ajudar e para os demais há critérios bem definidos de morte encefálica que na realidade constatam que o desligamento do conjunto E-P da estrutura DE-CF já se realizou em grande parte e os mecanismos de percepção, que levam informação ao espírito, estão desligados. Os circuitos se fazem agora em níveis neurológicos mais básicos como o tronco cerebral e não a córtex, que é a porta de comunicação consciente com o espírito.

Talvez essas preocupações sejam resultado do imaginário popular em relação “ao espírito que sente seu corpo ser decomposto” que também são criações dos filmes de terror, bons para criar medo, mas que não têm fundamentos.

Relatos, histórias de traumas graves deixam claro que a pessoa sofre um desligamento automático de percepção entre o espírito e o corpo físico quando a intensidade de uma agressão física é muito intensa.

Um pouco da fantasia de “espíritos ligados” talvez seja resultado de se imaginar que um elo afetivo que se estabelece entre doador/ sua família e o receptor e sua família possa ser considerado como um elo orgânico. Confunde-se à parte (importante, mas ainda assim só uma parte) com a totalidade.

Em resumo: A pessoa que se encontra em morte encefálica de fato já se encontra morta. Já ocorreu em grande parte a separação entre o espírito/perispírito com o duplo etéreo/corpo físico. As funções básicas apenas se mantém porque estão sendo sustentadas pela tecnologia. Há alguns anos, sem o apoio de equipamentos o desencarne já teria se efetivado. Não há mais transmissão de informações pelos sentidos, através do cérebro para o espírito, que é quem sente, interpreta, pensa, etc. O que se faz é sustentar o corpo físico oxigenado e perfundido pelo tempo necessário para processar o transplante. Evita-se que o corpo se desagregue muito rapidamente. Não há dor, não há sofrimento. A permanência do espírito no polissistema material através daquele corpo físico não é mais viável, sustentável. O desencarne é um processo, algo que se desenvolve ao longo do tempo, mas a presença dos critérios de morte encefálica sinalizam que o desencarne alcançou uma fase na qual não há mais retorno. O que se deixa para trás, uma estrutura complexa, com suas partes fortemente interligadas, vai se desagregar em componentes mais simples com rapidez, mas se algumas dessas partes (dependentes do conjunto e independentes em outras funções) se ligarem a um outro princípio organizador (no caso um outro conjunto espírito/perispírito), essas partes podem desempenhar funções úteis para aqueles que se mantenham no PSM.

Iniciado o processo, o espírito em desencarne não tem mais controle sobre o destino da estrutura orgânica que desenvolveu, organizou, estruturou, equilíbrio por algum tempo. Ela volta a fazer parte de ciclos mais simples inerentes à matéria, como ciclo do nitrogênio, do cálcio, etc.

O corpo é um veículo, instrumento, nobre, mas temporário, que retorna ao ciclo biológico após deixar de ter o elemento aglutinador, organizador do espírito.

De qualquer forma essa é uma área de estudo muito fascinante, mas ainda pouco estudada de forma criteriosa e crítica nas suas interfaces com os conceitos doutrinários. Ficamos à disposição para conversar e abertos para seus comentários, críticas, novas questões.

Grupo de Estudo em Saúde Leocádio J. Correia do Núcleo de Ensino e Pesquisa da SBEE.

BIBLIOGRAFIA

Sementes da Descoberta Científica de W. Beveridge, Ed. Edusp, o capítulo 05 apresenta um resumo muito bom da teoria dos sistemas.

Os livros de H. G. Andrade: desde o antigo “A Matéria Psi”, até os mais recentes “Espírito, Perispírito e Alma ”, “Psi Quântico , e” Morte, Renascimento e Evolução ““.

Os de Rupert Sheldrake, incluindo “A Nova Ciência da Vida”.

 

O livro “Ciência com Consciência ” de Edgar Morin.

“Introdução ao Estudo da Cronobiologia”, editora Edusp, de José Cipolla-Neto e Luis Menna-Barreto.

“A Teia da vida” , e outros de F. Capra, da Ed. Cultrix.

Além de três referências tiradas de revistas espíritas tradicionais que podem ser úteis para ajudar a situar a discussão:

Simonetti, Richard . Doação de órgãos . Revista Internacional do Espiritismo,

73 (01): 10, fevereiro de 1998.

Bernardi, Ricardo. Órgãos, doação , informação e desinformação. Revista Internacional do Espiritismo, 74 (04): 183, maio de 1999.

Bezerra, Evandro. O Transplante de órgãos na visão espírita . O Reformador. 116 (2035): 314, outubro de 1999.