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O
presente texto visa expor e salientar de forma breve cada um dos cinco
princípios básicos do Espiritismo (Deus, Jesus Cristo, comunicação
entre os polissistemas material e espiritual, livre-arbítrio e
reencarnação) na sua possibilidade lógica de tornarem-se
passíveis da análise científica, bem como explanar
como eles têm sido recontextualizados atualmente e sua coerência
com o discurso científico.
Há muito tempo que Spinoza e posteriormente o Espiritismo despersonalizaram
a figura de Deus, buscando estabelecer critérios lógicos
para evidenciar sua existência. Ambos conceituaram Deus como “causa
primária de todas as coisas” , estabelecendo um nexo causal
entre os efeitos observáveis e uma origem comum a eles. Na justificativa
inserida na sistematização do discurso dos espíritos
realizada por Allan Kardec no “Livro dos Espíritos”,
coloca-se que “para todo efeito inteligente deve haver uma causa
inteligente” , de onde se conclui que sendo o Universo inteligível
em suas manifestações há de ter uma causa inteligente
precedendo sua ordenação: Deus. Este discurso não
foge muito daquele propagado atualmente pela ciência oficial. Esta
trabalha sempre com um princípio de razão suficiente e tem
percebido determinados fenômenos organizados e inteligíveis
com uma complexidade tal de eventos que não poderiam ser simplesmente
originários do acaso. Além disso, a teoria da complexidade
vem reconhecendo sistemas de vida e seres vivos auto-administráveis,
prevendo a necessidade de buscar um fundamento inteligente para a vida.
Recentemente o espírito A. Grimm conceituou Deus como o “fundamento
do fundamento da vida” . Reconhecendo, portanto, um fundamento inteligente
na vida procurar-se-ia uma causa inteligente deste mesmo fundamento. Por
este motivo têm sido vários os cientistas a buscarem uma
causa comum para a estruturação inteligente do Universo.
O Espiritismo é eminentemente cristão ao adotar sistematicamente
a moral propagada pela vivência de Jesus. Menos interessado em buscar
as origens e provas factuais da existência deste homem, embora não
se posicione contra estas pesquisas, concentra-se na contextualização
de seus ensinamentos buscando extrair-lhe os fundamentos lógicos
matemáticos que tornam sua moral necessária e rigorosamente
baseada num princípio de igualdade. Atualmente, superada as leituras
repetitivas e estanques das mensagens crísticas, muitos cientistas
das áreas humanas e sociais têm se voltado para a coerência
de seu conteúdo e atualidade de suas prerrogativas. Mesmo com o
risco de fazer um arrazoado medíocre do homem Jesus e da própria
disciplina acadêmica com a qual o aborda, surgem iniciativas interessantes
trazendo toda a multidimensionalidade de suas propostas, despertando para
um desdobramento lógico do seu comportamento num contexto de vivência
mútua. Muitos são os cientistas que hoje alertam para a
necessidade de uma mudança nas relações interpessoais
a fim da preservação da vida em seu mais alto grau de expressão,
no que se inserem as possibilidades de cada indivíduo manifestar
suas potencialidades tendo como pressupostos a dignificação
de sua pessoa. Por este motivo, a proposta espírita de renovar
a mensagem cristã em seus fundamentos mais profundos está
em consonância com as propostas acadêmicas emergentes.
A comunicação entre os polissistemas material e espiritual,
uma das particularidades da mediunidade, representa um dos pontos fundantes
através dos quais se erigiu o edifício lógico-axiológico
do Espiritismo. Allan Kardec, pseudônimo do pedagogo e pesquisador
Hippolite Léon Denizard Rivail, interessado nos fenômenos
das mesas girantes, comuns na Europa do século XIX, partiu de uma
realidade empírica para abordar-lhe com metodologias científicas
e abstrair teorias consistentes que garantiram a legitimidade da codificação
espírita. Ao perceber inteligência nos fenômenos físicos,
buscou sua causa, encontrando por detrás delas espíritos
inteligentes. Ao recolher suas mensagens em diversas partes do globo sistematizou-as
e nelas percebeu um mesmo conteúdo com mesmos propósitos.
A partiu daí construiu todas as obras da codificação.
Posteriormente, diversos cientistas voltaram-se para estas manifestações
e, com o rigor que a atividade investigatória exige, compuseram
inúmeros materiais de verificação da comunicação
com o polissistema espiritual. Estava incluso neste material desde textos
dos espíritos até fotos e impressões em luvas de
gesso. Como a verificação desses fenômenos hoje em
dia não depende somente da vontade dos pesquisadores, estes têm
refinado seus aparelhos de investigação e, paulatinamente,
vão encontrando resultados que confirmem peremptoriamente a realidade
desta forma específica de comunicação.
O livre arbítrio é um dos temas mais polêmicos, que
permeia discussões filosóficas, científicas e tecno-científicas.
O Espiritismo o admite e o coloca como motriz propulsora da evolução
espiritual, forma pela qual o espírito vai construindo-se se revelando
a si mesmo, contribuindo com a organização e a harmonia
cósmica. Existem correntes que o negam mediante um determinismo
biológico, outras por um determinismo sociológico e outras
por um determinismo divino. Porém, recentemente a teoria da complexidade,
ao trabalhar a hipercomplexidade, afirma que o ser humano é o ser
mais independente de sua condição genética e mais
dependente dos outros e do seu meio. A partir daí, como suas respostas
não são dadas automaticamente, passa a buscar e construir
estratégias que lhe permitam permanentemente melhor adaptação
às condições de vida (materiais e existenciais).
O discurso espírita está em coerência com esta proposta,
afirmando que o espírito, portador do livre-arbítrio, na
condição de encarnado está submetido a três
paradigmas: contingência, cultura e inteligência, através
do quais vai progressivamente evoluindo buscando maior expressão
de seu ser e da sua subjetividade.
O processo reencarnatório, um pilar de vital importância
para a compreensão e coerência do Espiritismo, talvez seja
um dos cinco princípios espíritas menos trabalhados, investigados
e interpretados pela ciência. Em parte pela não instrumentalização
contemporânea para tal investigação, mas também
por um discurso engessado dos próprios espíritas que insistem
em trabalharem-na como teoria de “vidas passadas” de forma
mecânica, linear e reducionista. Sua contextualização
filosófica e científica pode enriquecer, como demonstram
os estudos na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas, as áreas
das ciências sociais, demonstrando como ocorrem inovações
culturais não previstas, quais critérios poderiam ser utilizados
em investigações sociológicas, quais formas de compreensão
da condição humana, qual o significado do aprendizado e
assim por diante. Uma forma de conjunção do discurso espírita
do instituto reencarnatório com a ciência pode se dar nas
investigações da evolução dos seres vivos.
Ao perceber que a matéria vem se complexificando e, não
podendo ter partido do acaso como se viu anteriormente, são necessários
espíritos cada vez mais preparados para gerenciar formas materiais
mais complexas. Daí, a necessidade de um espírito percorrer
gradualmente diversas formas de vida no intuito de melhor operá-las,
culminando com a emergência do ser humano que terá não
somente de administrar a matéria mas também sonhos, desejos,
medos, fraquezas, aprendizado e sua condição moral. Assim,
a reencarnação estaria inserida como imperativamente necessária
para a própria autoconstrução do ser humano, fato
que iluminaria teses filosóficas, pedagógicas e psicológicas.
Para tanto seria necessário de imediato trabalhar conceitos acadêmicos
fundamentais das ciências sociais para explicitar a função
primordial do mecanismo da reencarnação.
Guilherme
Frederico Knopak Silva |