Entre perplexidade e estupefação
vimos testemunhando a imprensa espírita brasileira insistindo em
se distanciar de uma uniformidade doutrinária.
Evidentemente, todo o debate em torno da Doutrina dos Espíritos
é salutar. Não há como fazer acontecer o pós-moderno
no Espiritismo senão pela contraposição de idéias
— que precipitarão, então, a composição
de um momento novo. “A verdade é filha da discussão,
não da simpatia”, disse Bachelard. Faça-se, pois,
a discussão; ponha-se opinião, contraponha-se outra opinião;
componha-se uma opinião nova.
Todavia, o novo — a emergência das idéias novas, oxigenadoras
do sistema social — há de ser construtivo, há de determinar
avanços no Espiritismo. E o estado perplexo e estupefato, que acima
anunciamos, se deve a certas correntes de pensamento dentro do Espiritismo,
que afastam o seu momento religioso, buscando tão somente a prática
de um Espiritismo só científico ou só filosófico
— ou somente ambos. Chega-se ao descuido de serem trabalhadas frases
de Kardec — que supostamente ele as teria escrito, eis que nem o
desconto da tradução foi feito —, onde ele teria excluído
o Espiritismo Religião.
A interpretação é, em tese, válida como expressão
de pensamento livre. E é também democrático conviver-se
com ela. Mas entre isso e sua aceitação há uma grande
distância. Vejamos alguns argumentos.
Em primeiro lugar, contrapomos um elemento da própria obra kadercista:
O Evangelho segundo o Espiritismo. É, no mínimo, difícil,
aceitar a hipótese de que Kardec teria excluído a Religião
do Espiritismo — ou mesmo que isso fora intenção dos
espíritos orientadores do trabalho —, e, ao mesmo tempo,
ter editado esse livro.
Àqueles que confundem Religião com misticismo, pedimos atenção
ao conceito. O que é Religião? É instrumento de evolução,
assim como a ciência e a filosofia. Porém, cada um desses
instrumentos desempenha seu papel junto à humanidade, não
excluindo os demais, mas somando-se a eles. O primeiro momento do homem,
após atingir a consciência de si mesmo, foi um momento de
filosofia: Quem sou eu? De onde vim? Pra onde vou? O que é o mundo?
O que é vida? O que é morte?
Gradualmente, as indagações filosóficas deram lugar
à experimentação nos fenômenos, em busca de
comprovação e certeza. O fenômeno foi bem observado,
lançaram-se hipóteses quanto a eventuais leis que o regem;
experimentaram e concluíram leis naturais. Eis a ciência,
explicando racionalmente quase todo o fenômeno existencial humano.
Quase? Sim, quase. Mesmo atualmente a ciência se defronta com indagações
até agora impossíveis de reprodução em laboratório.
Ainda não se criou a vida nos tubos de ensaio — nem se contornou
a morte! A origem do Universo ainda é o hipotético “Big
Bang” (Grande Explosão).
Basta a filosofia continuar as suas indagações e a ciência
logo se vê em apuros. Não obstante, a vida é —
existe! A morte é — o desencarne existe! Nem a ciência,
nem a filosofia explicam. Apenas propõem respostas hipotéticas.
Efetivamente, Deus está nos tubos de ensaio, mas não se
restringe a eles. Nós estamos em Deus e Deus está em nós
— nas palavras do próprio Joshua.
A filosofia indaga o cosmo; a ciência busca sua resposta, sua explicação
da experiência cósmica. Aí, disse Einstein: “Como
pode a experiência cósmica ser comunicada a outra pessoa,
quando não suscita nenhuma noção definida de Deus
e lhe falta qualquer teologia? (...) nesta era de materialismo em que
vivemos, os cientistas sérios são unicamente os homens profundamente
religiosos (...) o sentimento religioso assume a forma de um arroubo de
estupefação, à vista da harmonia da lei universal,
que revela uma inteligência de tamanha superioridade que, em face
dela, todo o raciocínio sistemático e todas as atividades
do homem não passam de um reflexo extremamente insignificante...”
(do livro “Mein Weltbild”, in Einstein, o enigma do universo,
de Huberto Rodhen, p. 210-213).
Como pretende o Espiritismo educar integralmente o ser humano, sem auxiliá-lo
a se posicionar criticamente ante Deus e seus atributos? Ora, esse é
o papel a ser desempenhado pela Religião.
Mas falamos, no início, no Evangelho segundo o Espiritismo. É
doutrinário que o Espiritismo é cristão, essencialmente
cristão. Portanto, esse Evangelho, essa mensagem vivenciada por
Jesus foi justamente um esforço para que as pessoas fizessem essa
ponte, essa ligação, com o Criador? O que há de misticismo
nisso?
O Evangelho é a chave, o canal, para que o homem perceba que Deus
dentro de si, e a ele dentro de Deus; é o método para que
haja essa sintonia. Daí o Espiritismo vai mais longe. Ultrapassa,
como Religião, o mero re-ligar — ele busca a identidade com
Deus, busca essa sintonia com as leis do universo.
O espírita é, por excelência (ou deve ser), um evangelista
dessa nova ordem existencial. E o Espiritismo como Religião propõe
a grande síntese humana: que os homens se identifiquem consigo
mesmo, com os outros e com Deus. Sem rituais, sem cerimônias, mas
com absoluta consciência crítica, com fé racional.
Essa a receita para se alcançar a moral do mundo dos espíritos.
O resto é preconceito estreito — o novo deve possibilitar
a uniformidade do Espiritismo em torno da integralidade de seus três
momentos: Filosofia, Ciência e Religião.
Ano III - Número 5 - Junho 1987
|