O MOMENTO-CIÊNCIA DO ESPIRITISMO

                 Informamos aos senhores convenientes — aqueles que se dizem espíritas, mas professam outras doutrinas, estabelecendo uma formidável babel de conceitos — que o Espiritismo integra os três momentos (filosófico, científico e religioso) uma relação dialética, onde cada um deles se movimenta como um seguinte em relação ao anterior — completando-o, opondo-lhe novas circunstâncias, propondo novas indagações. E esse seguinte, a seu turno, se tornará anterior em relação ao próximo momento, criando um quadro dinâmico que vai, gradualmente, dilatando o conjunto de dados espiritas que interpretam o mundo. Noutras palavras: cada acontecimento será sempre interpretado, à luz do Espiritismo, sob um ângulo filosófico, científico e religioso — onde a tentativa de se fazer qualquer separação implicará sempre em observação parcial, reduzida. Exemplo: é preciso que se observe o fenômeno da reencarnação a um nível filosófico (quando percebemos, por meio de abstração, que sua ausência tornaria o mundo real uma mentira, um mero capricho de um “deus do absurdo”); a um nível científico (quando o processo mediúnico revela fatos incontestáveis sobre as vidas sucessivas; a hipnose, que, por regressão de memória, permite a constatação do fenômeno; e não só a hipnose, mas também a observação sociológica, antropológica, etnológica, etc., que apresenta conceitos muito sérios acerca da forma como a herança social é transmitida, e recebida, a evolução do comportamento humano, a memória social, etc.); e a um nível religioso (quando a pergunta quanto à razão primeira e à razão última do universo nos conduz à sua Unidade, a um Ser que está em tudo, e tudo está nEle, um Ser que justifica a reencarnação como uma expressão natural de justiça e evolução... àquilo que os budistas chamam de Nirvana, e nós, espíritas, chamamos Deus).

                Portanto, querer dizer que o Espiritismo é apenas uma ciência, ou querer reduzir sua prática apenas à aplicação de métodos científicos, significa representar erroneamente a realidade, significa distanciar esta da mensagem espírita.

                No livro O TAO da física (Editora Cultrix, 183), o físico Fritjof Capra, bem demonstra a precariedade do conhecimento científico para se buscar uma interpretação da totalidade do universo. Diz ele:

                “O conhecimento racional deriva da experiência que possuímos no trato com objetos e fatos do nosso ambiente cotidiano. Ele pertence ao reino do intelecto, cuja função é discriminar, dividir, comparar, medir e categorizar”. Prossegue dizendo que pela abstração — “característica crucial desse conhecimento” — nós acabamos por construir um “mapa intelectual da realidade”, um “sistema de símbolos e conceitos abstratos”, e que esse método é “incapaz de descrever ou sequer de apreender integralmente essa realidade”. E, para demonstrar mais a limitação dos conceitos científicos, cita Alfred Korzybski: “... o mapa não é o território...”

                Quer dizer, quanto mais se define um sistema de conceitos, mais distante ele fica do mundo real. O universo está mudando o tempo todo, portanto todos os modelos e teorias são provisórios, aproximativos. Capra coloca, mais adiante, uma frase lapidar de Albert Einstein: “... ‘Até onde as leis da matemática se refiram à realidade, elas estão longe de constituir algo certo; e, na medida em que constituem algo certo, não se referem à realidade’...”

                Daí, dizer-se que o Espiritismo é só ciência é retirar-lhe o caráter transcedente, e atrelá-lo ao lento progresso científico — sempre aguardando o aprimoramento e a superação das teorias e leis da natureza. Ainda com Capra, a “teoria quântica não pode sempre explicar a velocidade da luz”. A ciência é limitada ao seu próprio processo de evolução — ainda necessita trabalhar com as chamadas constantes “fundamentais” não explicadas, ou seja, verdades aceitas a partir de alguma estrutura conceitual não questionada.

                Quando dizemos que o Espiritismo propõe uma “Fé racional”, não queremos dizer uma Fé contida pela razão, mas antes confirmada por ela. O progresso científico necessariamente irá confirmando a fé espírita, sua proposta religiosa.

                O próprio conceito de Deus é relativo, eis que é criação de mente humana. Traduzir Deus em palavras é negar-Lhe sua essência absoluta e infinita. Dizer-se que Deus é energia já é uma redução, haja vista as dificuldades que os Físicos têm de demonstrar essa “energia” em todas as suas decorrências.

                A Doutrina dos Espíritos tem um momento ciência. É o momento em que observa, lança hipóteses, experimenta e comprova, desvendando mais uma fração do fenômeno universal. É o momento que sucede ao filosófico e prepara o religioso, fortalecendo-o. É o momento que sustenta criticamente o ser humano em sua permanente aspiração à identidade com o Criador, à transcedência da transitoriedade da matéria.

                Todavia, como dissemos, é um dos momentos — não é o único, nem o principal.

                                                                                              Documentos SBEE
Ano III    Número 6      Setembro 1987